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O dilema das mamografias: fazer o exame ou deixar pra lá?

L vamos ns de novo. Outro estudo levanta questes sobre os benefcios da mamografia, e mais uma srie de afirmaes confusas so expelidas pelos especialistas.

No ms passado, o Dr. Otis Brawley, diretor de medicina da sociedade do cncer, disse ao New York Times que a profisso mdica havia exagerado os benefcios dos exames de cncer, e que se uma mulher se recusasse a fazer uma mamografia, eu no pensaria mal dela, mas gostaria que ela fizesse o exame.
Ento, a sociedade do cncer emitiu uma declarao afirmando que as mulheres acima dos 40 anos devem seguir realizando mamografias anualmente, pois sete estudos mostraram que o exame reduz o risco de morte por cncer de mama.

Porm, a declarao tambm disse que a mamografia pode deixar passar cnceres que precisam de tratamento, e algumas vezes encontrar doenas que no precisam. Em outras palavras, o exame pode fazer com que algumas mulheres sejam tratadas, e expostas a graves efeitos colaterais, por cnceres que no as teriam matado. Alguns pesquisadores estimam que at um tero dos cnceres encontrados pelos exames no seriam fatais mesmo sem tratamento. No momento, contudo, ningum sabe quais so eles.

Ento o que as mulheres devem fazer?

Mamografias no so divertidas, para dizer o mnimo. Como muitas mulheres, eu as venho aguentando na esperana de que, caso contraia cncer, elas possam encontr-lo cedo o bastante para salvar minha vida e, talvez, ajudar-me a evitar cirurgias extensivas e quimioterapia. Ser que estive me enganando durante todo esse tempo?

Esperando colocar alguma lgica nisso tudo, consultei diversos especialistas. Todos disseram que a mamografia ainda era importante afinal, o cncer de mama mata 40 mil mulheres por ano somente nos EUA , mas discordaram sobre quem realmente precisava do exame, e com que frequncia. Todos concordaram que pesquisas eram extremamente necessrias para descobrir como diferenciar os tumores perigosos daqueles chamados indolentes.

Um dos peritos era a Dra. Laura J. Esserman, cirurgi da Universidade da Califrnia, em So Francisco, e autora do relatrio, publicado em 21 de outubro no The Journal of the American Medical Association, que levantou o mais recente debate a respeito da mamografia. Esserman descreveu o cncer de mama como lento, mdio e rpido em ritmo de crescimento e agressividade e disse que o exame parecia ser bom em encontrar os lentos, que provavelmente no precisariam de tratamento, mas poderia no pegar os tipos agressivos e mortais antes de sua disseminao. Porm, ele tambm pega os mdios, e essas so as mulheres que mais podem se beneficiar. Mais uma vez, pesquisas adicionais so necessrias para descobrir que tipo de tumor o paciente possui.

A primeira coisa para falar a respeito quem ajudado e quem no , disse Esserman. Em sua opinio, mulheres acima dos 70 ou 75 anos podem parar de ser examinadas, pois nenhum estudo mostrou que isso as ajudaria. Se elas desenvolverem cncer de mama, explicou ela, provavelmente ser um tipo de crescimento lento que no chegar a mat-las.

Como muitos outros pesquisadores, ela disse que, apesar das diretrizes da sociedade do cncer, tambm faltavam evidncias de benefcios dos exames em mulheres entre 40 e 50 anos a menos que tivessem um forte histrico familiar de cncer de mama ou uma mutao num gene chamado BRCA, capaz de aumentar seriamente o risco.

Para mulheres de 50 a 70 anos, segundo Esserman, a histria outra. Nessa faixa etria, existem muitas evidncias de que os exames podem reduzir o risco de morte por cncer de mama de 20 a 30%.
Alm disso, ela continuou, as mulheres devem tentar conhecer seu prprio risco, e se este for alto, conversar com um mdico sobre tomar tamoxifeno ou raloxifeno, medicamentos capazes de reduzir os riscos.

Um fator de risco ter tecido denso no seio, que se traduz numa dupla ameaa: o cncer se torna mais provvel e mais difcil de detectar, pois os raios-X no penetram nesse tecido to bem quanto na gordura. A nica maneira de descobrir se voc possui seios densos atravs de uma mamografia, e o relatrio do radiologista deve mencionar densidade, explica Esserman. A paciente deve solicitar o relatrio completo.

Outros fatores de risco incluem tomar hormnios para tratar sintomas da menopausa; ter um histrico de bipsias, nenhuma gravidez antes dos 30 anos, ou uma me ou irm com cncer de mama; e o envelhecimento.

Uma calculadora de risco para o cncer de mama, usada pelo Instituto Nacional de Cncer dos Estados Unidos, oferece uma classificao baseada nas respostas de sete perguntas bsicas. Entretanto, apenas uma estimativa e a Dra. Susan love, cirurgi e pesquisadora de Santa Monica, na Califrnia, avisa que a calculadora no to boa para prever riscos individuais. Quanto ao exame, love elogiou Brawley e Esserman por questionar o status quo.

Todo mundo tinha medo de falar nisso, como se fosse proibido, disse ela, acrescentando: Realmente no acho que devamos examinar rotineiramente mulheres abaixo dos 50 anos. No existem dados provando que isso funcione.

Mulheres mais jovens, segundo ela, tm menos chances de desenvolver cncer, e tendem a ter tecido denso no seio, ento a mamografia tem mais chances de deixar passar os tumores. Para elas, trata-se de radiao sem muitos benefcios.

Love apontou que nem todos os grupos mdicos concordaram com as diretrizes da sociedade do cncer. Alguns recomendaram o fim dos exames para mulheres abaixo dos 50 e acima dos 70 anos, e alguns aconselham mamografias apenas a cada dois anos. Em pases europeus, que realizam o exame a cada dois anos segundo ele, as taxas de mortalidade por cncer de mama no so mais altas que nos Estados Unidos.

Ela acrescentou que mulheres entre 50 e 70 anos devem descobrir se possuem seios densos, e aquelas com resultados negativos poderiam provavelmente seguir com mamografias menos frequentes.

Porm, alguns pesquisadores dizem que os benefcios dos exames prematuros superam em muito os riscos, e que se as mulheres no os realizarem, as conquistas contra o cncer de mama as taxas de mortalidade declinaram nos ltimos anos poderiam ser desfeitas.

O Dr. Larry Norton, sub-chefe de medicina do Centro de Cncer Memorial Sloan-Kettering, localizado em Manhattan, disse por e-mail: S porque um exame no perfeito no podemos abandon-lo enquanto outros exames esto sendo desenvolvidos. O ponto principal que, se uma mulher quer reduzir suas chances de morte por cncer de mama (em ao menos 24%, o que no um efeito pequeno), ento ela deve seguir as diretrizes atuais de exames.

Mesmo se fosse verdade que um em cada 3 cnceres encontrados por mamografias no se tornariam fatais (um nmero que Norton questiona), no existe maneira de dizer quais so eles.

E frente incerteza, algum precisa fazer escolhas racionais, afirmou o mdico. Digamos que algum dispare uma arma na sua direo e voc sabe que h 30% de chances que a bala seja de festim. Mesmo assim, voc no se abaixa?

Norton tambm enfatiza que encontrar tumores ainda pequenos, algo que a mamografia pode fazer, aumenta a probabilidade de que a paciente evite a remoo do seio e a quimioterapia.

Todavia, a Dra. Silvia C. Formenti, diretora de oncologia de radiao do Centro de Medicina Langone da Universidade de Nova York, disse: No acho que exista debate o suficiente. O exame no paga o que se espera dele.

Formenti afirmou estar preocupada sobre descobrir tumores em pessoas idosas, tumores que provavelmente no matariam esses indivduos. Porm, o diagnstico as transforma em pacientes de cncer, e corri para sempre sua paz de esprito.

Ns lhes tomamos a inocncia de ser saudvel e no ter de se preocupar com cncer, disse ela. O custo psicolgico de se tornar um paciente de cncer subestimado.

Formenti disse que a nfase nos exames por grupos como a sociedade do cncer podem ter iludido o pblico a pensar que os testes poderiam evitar a doena. Essa uma concepo extremamente errada, disse ela.

Mesmo assim, segundo ela, entre 50 e 60 anos um bom perodo para ser examinada e mulheres acima dos 60 ainda podem se beneficiar, embora as evidncias no sejam to fortes. Entretanto, ela enfatiza que mulheres de todas as idades precisam avaliar seus riscos ao tomar decises sobre realizar ou no os exames, e que todas devem ter seus seios examinados anualmente por um mdico em busca de caroos ou outras anormalidades. Um mdico experiente consegue sentir caroos de um centmetro ou mais, disse ela, apontando que mesmo massas de at cinco centmetros ainda podem ser removidas por cirurgia preservando o seio e podem no exigir quimioterapia.

Num certo sentido, tenho de confessar que fico feliz se o pblico se ofende ou se enfurece com a discusso, disse Formenti. Quero que os contribuintes digam: Voc no tem clareza. Estude isso. Pare de nos dizer que voc uma boa menina se fizer uma mamografia.

Quando terminei de fazer as entrevistas, decidi que, por estar entre 50 e 60 anos, continuarei fazendo mamografias. Entretanto, solicitei o relatrio de meu ltimo exame para descobrir sobre a densidade de meu tecido, e se for baixa, poderei aumentar os intervalos para 18 meses ou at dois anos. E espero que, nesse meio tempo, as pesquisas encontrem uma forma de dizer quais tumores iro lhe matar e quais simplesmente ficaro ali, sem fazer nada, at que voc morra de qualquer outra coisa.

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